Pelas Paisagens

11 março 2026

Dia 1

Era o começo da noite na pequena vila e tirando o som do vento que batucava nas janelas uma promessa de chuva, o restante era silêncio. Do tipo acolhedor e inofensivo, que dispensa a necessidade de trancas nas portas. Ao longo do dia, conclui que os moradores da região colaboravam com essa sensação, por isso na cabana alugada logo me senti em casa. Dentro dela, coloquei minha maleta, com todos os meus utensílios de pintura, sobre a mesa de uma pequena sala de jantar e logo notei como o dia passara rápido.

No banheiro, enquanto lavava as mãos, repassei a imagem da tela pintada mais cedo, seus resquícios nas cores que se misturavam à água que corria. Tons de verde para as folhagens, terrosos para caules e troncos, além de amarelos, para pequenos canarinhos que descansavam sobre os galhos da vegetação de uma encruzilhada que desembocava numa cidadezinha ao fundo. Aquele processo para mim era como uma limpeza espiritual, a tinta levava embora quaisquer sentimentos que eu havia sentido durante a pintura do quadro, fosse temor, ansiedade ou alegria, ao final eu me sentiaa como uma tela em branco, pronta para o próximo dia.

Totalmente Totalmente relaxado após um banho, jantei sopa de mandioca com temperos da região e saí para ver as estrelas. Após viajar bastante, passei a notar que existe toda uma nova dimensão do céu que se abre quando o observamos longe de postes de luz e fora do alcance de nuvens de poluição de grandes cidades. Com isso em mente você pode imaginar qual não foi minha frustração ao sair e ver um céu coberto por um lençol de nuvens não de poluição mais… comuns. Veja bem, poderia ser pior, mas foi difícil esconder meu descontentamento. S. Decidi entar na varanda, e lá passei alguns instantes imerso na quietude do lugar. Atentando os ouvidos pude sentir que rãs e outros insetos viviam ali por perto. Foi agradável num primeiro momento, “quem diria que numa pedra gigante que gira no espaço, seria possível encontrar seres vivos minúsculos e coloridos!” Aí eu comecei a imaginá-los entrando na cabana para reivindicar com suas patinhas e ventosas aquele espaço que eu claramente invadira. Foi ali que decidi dar por encerrada a contemplação noturna.

Já novamente do lado de dentro, fui dar uma olhada no mapa que tinha da vila, memorizando o caminho que faria no dia seguinte. Parecia bastante simples, tendo em vista às aventuras por trilhas em montanhas e sob vales de pedra escorregadia que havia passado nos meses que antecederam minha chegada nesta vila habitada que parecia saída de um filme antigo, sem grande acesso a internet e com ambientes majoritariamente sem tomadas. Apesar disso, tinham eletricidade e água quente, então não tinha muito do que reclamar.

Antes do sono alcançar a cabeça relembrei o motivo de ter vindo para cá: um cenário pitoresco que tinha algo de especial em todas as citações que tive acesso, de diários a lembranças de outros viajantes. Um cenário que como destino ou um chamado imemorial me embalou até os portões dos sonhos naquela noite.

Dia 2

Andando pela pequena cidade é quase impossível se sentir entediado. Uma vez que na rua principal lotada de pedestres se via de tudo um pouco, de cuidadores de cabras a crianças correndo com sacos de pão recém saídos do forno, passando por galinhas soltas e comerciantes de legumes e peças de roupa. Todos aos berros, ansiosos por novas vendas, naturalmente encaixados lado a lado à beira das casas e lojas de madeira simples e aspecto antigo. Os participantes do cenário rapidamente se tornaram integrantes de um teatro vivo, no momento em que dei mais “bom dias” do que pude contar as respostas por uma margem bastante curta, respostas estas sempre animadas e convidativas. Tanto que numa dessas parei para tomar uma xícara de café com alguns locais, ciente de meu jeito estrangeiro de falar e da grande maleta de madeira com respingos de tinta que garantiam olhares curiosos que eu estava disposto a alimentar, enfim decidi que nada melhor que unir o útil ao agradável, precisava pegar algumas direções::

- Sim, eu venho de longe, e vim aqui para pintar um lago. Sabem me indicar se sigo pelo caminho correto?

Um senhor de bigode grosso e luvas me observava entre uma jogada de dominó e outra.

- Sabe filho, é raro vermos visitantes por essas bandas, ainda mais interessados naquele lago. A voz dura e pausada foi acompanhada de olhos cansados ao que ele completou:

-Continue seguindo em frente pela trilha e logo mais o encontrará, apenas tome cuidado com o terreno, o lago pode acabar te encontrando primeiro.

Ao dizer isso ele observou o jogador à frente e os amigos que estavam ao redor, ao que todos seguiram num tumulto de gargalhadas mórbidas, claramente não estavam me levando a sério. Dando um sorriso confuso, terminei o café, agradeci a informação e segui adiante.

Enquanto pensava naquilo, pude acompanhar a mudança gradual da paisagem: as casas e lojas de madeira sendo substituídas por cercas baixas e pequenas casinhas contornadas por plantas de todos os tipos, algumas com flores em tons de rosa, azul e laranja, assim como arbustos, gramíneas e plantas folhosas. Os pedestres que antes usavam roupas pesadas e típicas de trabalhos braçais foram sendo substituídos por trabalhadores com chapéus grandes, macacões, pás de jardinagem e utensílios de colheita. Parando um instante para observar algumas pessoas que colhiam cenouras numa paragem, logo notei um menino fazendo carinho em um cachorro na porta de uma pequena casa ao lado.

- Qual é o seu nome tio? O garoto de olhos espertos alternativa entre meu rosto e a maleta com uma expressão curiosa.

- Eu sou apenas um artista viajante. E você, quem é?

- Artista viajante, que engraçado! Você é a primeira pessoa que conheço com esse nome. Ele respondeu surpreso, antes de continuar:

- Me chamo Arthur e essa aqui é a Lila. Ele disse fazendo carinho na cabeça da cadela enquanto sorria orgulhoso.

Notei que a cadela tinha um barrigão, devia estar prenha. Seu pelo era curto e alaranjado, e ela parecia bem cuidada, dei um sorriso e disse:

- Ela é linda! Você mora aqui por perto? É que eu estou atrás de um lago.

- Moro aqui mesmo, com a minha avó. Ela está por ali pegando algumas cenouras para um ensopado super hiper delicioso! Arthur disse se levantando de um pulo e apontando para uma senhora de cabelos brancos no campo ao lado da casa. Ele tinha ignorado minha pergunta, mas deixei quieto e olhei na direção apontada. A distância era difícil notar pois no meio do caminho plantas floridas cresciam em um jardim espaçoso. Apesar disso, olhando atentamente era possível identificar uma mulher, já idosa, com um vestido branco estampado com flores amarelas. Ela parecia concentrada colhendo as cenouras.

- A sim, ela deve cozinhar muito bem! Respondi, ainda achando estranho a mudança de foco, ninguém parecia disposto a comentar sobre o lago. Vendo Arthur voltar para o lado da cadela continuei:

- Bem Arthur, devo seguir em frente, quero pintar o lago ainda hoje, se possível voltarei aqui ao final da tarde, com sorte trarei algo para a Lila poder brincar.

- Legal!! Ela adora correr atrás de galhos e rolar na grama, apesar de ter estado mais preguiçosa nessas últimas semanas. Lila, Lila, você é uma graça! Enquanto falava as últimas palavras ele dava batidinhas de leve na barriga de uma Lila bastante contente.


Segui minha caminhada pela trilha de terra, até uma floresta, que começou como um conjunto de árvores espaçadas que aos poucos foram se reunindo num emaranhado denso. Por ali a trilha que até então seguia foi ficando menos marcada, escondida pela mata fechada, porém ela fazia jus ao mapa que tinha visto no dia anterior, tudo que eu tinha que fazer era não perdê-la de vista. Sendo assim, segui em frente, pé ante pé, as vezes estralando galhos que pareciam reverberar pelo ambiente cada vez mais úmido e de aspecto intocado. O sol apesar de forte, foi tendo seus raios raptados pelas folhagens grossas e pesadas que hora ou outra davam brecha à luz tímida que em quase nada aquecia.

Não sei quanto tempo tive de seguir caminhando, mas tenho gravado em minha mente como se fosse ontem o instante em que saí da densa floresta, chegando em uma clareira ampla e quase secreta. Com o suor na testa e os pés cansados, já sentia o peso da minha maleta de forma incómoda, quando enfim avistei o lago.

Olhando ao redor entendi o que o senhor de bigode havia dito mais cedo: para além da clareira pequena por onde eu havia entrado, o terreno ao redor do lago era moldado por morros íngremes que levavam direto a ele. Se em algum momento eu tivesse me dispersado da trilha apagada, seria um artista molhado e sem maleta para contar a história. Isso se conseguisse encontrar o caminho de volta.

Passada a provação que fora chegar até ali, as horas seguintes se deram de forma tranquila e apesar da atmosfera abafada do lugar, pude posicionar meu cavalete de modo a ter uma visão completa do lago, não era a melhor sensação do mundo, estar totalmente sozinho em um lugar tão inóspito, mas a paisagem que tinha diante de mim compensava o desconforto.

Após preparar o godê com os tons iniciais e ter improvisado um banco com um pedaço de tronco envelhecido, comecei a pintar. E a sensação que tive foi… estranha, para dizer o mínimo. A cada camada de tinta aplicada o lago parecia adquirir mais vida, enquanto o arredor parecia se desfazer aos poucos, perdendo definição, sendo enfim totalmente apagado de minha visão. O lago parecia me tragar a cada pincelada, camada após camada de tinta, cada vez mais próximo, cada vez mais amplo. Sobrepondo um número infindável de cores, a tela em certo momento, parecia tomar um aspecto de reflexo, ou melhor de uma lente. Conseguindo captar a cada nova pincelada sempre maior fidelidade do aspecto translúcido e quase mágico do lago. Durante o processo, fui notando aos poucos os seus limites, que iam da ponta diretamente a minha frente, onde havia uma espécie de caverna, passando pelas bordas que iam de encontro a raízes grossas de troncos e plantas extensas que como tentáculos flutuavam, se estendendo pelas pedras e às vezes até subindo nas árvores dos arredores. Estes tentáculos silenciosos, pareciam encontrar falhas na madeira, pelas quais sugavam seus nutrientes, acumulando sua energia vital, alimentando o lago, que após algumas horas, já me era tão familiar. Brilhante, tranquilo e… convidativo. Passado um grande período de trabalho, já estava com as mãos sujas de tinta. Parando por um momento, eu observei a tela. Era um dos melhores trabalhos que havia feito, e nem estava pronto ainda! Dei mais algumas pinceladas antes de dar por finalizado o dia e me alonguei. Tive então a ideia de aproveitar para dar um mergulho no lago antes de ir embora, talvez ver o que tinha na caverna ao fundo. Foi quando ouvi um berro:

- TOLO!!!!

Ao que pulei de susto, o cavalete sendo derrubado a frente, enquanto o tronco frágil se quebrava sob meu peso. Com as mãos na terra úmida, fiquei paralisado, o quadro tinha sumido, o cavalete havia caído. Pisquei algumas vezes, como se tivesse sido acordado de supetão. Sentado no chão, tudo que pude fazer foi ouvir o quadro indo de encontro ao lago. Recuperando a reação, me levantei trêmulo e totalmente em choque gritei olhando para trás:

- QUER ME MATAR DO CORAÇÃO?? O MEU QUADRO FOI…

As palavras sumiram da minha boca assim que reconheci a dona da voz: uma senhora de vestido branco. Era a avó de Arthur parada diante de mim, furiosa.

De volta a região próxima a entrada da floresta, eu já havia lavado as mãos e por gentileza da boa senhora, também já havia provado o ensopado de cenoura tão bem falado. Estava mesmo ótimo. Uma refeição quente era tudo de que precisava após tantas horas a fio pintando o que seria minha melhor tela, só para a perder em meio caminho do processo momentos depois… mas não reclamo, a sopa ajudou a recuperar um pouco da minha vontade de viver. Dado o evento traumático que fora seguido por uma caminhada silenciosa e bastante cansativa pela trilha de volta, foi uma refeição que ao menos prometia um bom agouro naquele momento.

Arthur comeu com a gente, tão feliz que poderia se dizer que era a primeira refeição que fazia na vida toda. Mas tirando isso poucas palavras foram trocadas. No final da ceia a senhora me pediu para acompanhá-la. Quando Arthur fez um sinal de quem corta a cabeça fora com um sorriso brincalhão, respondi com uma expressão de João sem braço. Antes de sair, deixei a maleta na mesa e mostrei para Arthur os utensílios de pintura, ele pegava os pinceis e molhava os dedos na tinta totalmente encantado, disse para cuidar das coisas enquanto bagunçava seu cabelo. Ele então fez um aceno de soldado posto ao dever enquanto eu saia.

Já na rua, notei que chegara o final de tarde, apesar disso ainda não estava totalmente escuro. Olhando ao redor pude ver Lila, deitada do outro lado da pista de terra batida, observando o movimento baixo com olhos experientes e sonolentos. Mais cedo, durante a refeição, a vi terminar de comer e sair de casa. Fiquei um tanto preocupado, mas agora a vendo ali próximo notei que era algo comum. Fui até ela e fiz carinho em sua cabeça, ela parecia satisfeita, o que aqueceu um pouco mais meu coração, um tanto perturbado pelo que imaginava estar prestes a ouvir da senhora que destruira meu trabalho.

“Boa menina” disse ao lado de Lila e estando agachado, observei sua barriga proeminente. Vendo que ela não tinha planos de sair dali, decidi seguir para o jardim. Lá dentro a senhora regava algumas roseiras altas. Eram de um vermelho profundo, destacado por fortes pétalas que lembravam o motivo da minha busca sempre constante por bons pigmentos de tinta, era raro ter materiais de qualidade capazes de chegar perto daquelas cores vivas! Me aproximando dela, não pude deixar de notar o cenário ao redor, repleto de violetas, acácias, girassois e diversas outras variedades de flores, que pareciam vindas de algum arco-íris.

- Você veio na hora errada jovem. Disse a senhora, a voz agora calma, indicando uma paciência que horas atrás eu julgara impossível.

- O que quer dizer senhora…

- Amélia, me chame apenas de… Amélia.

- Certo Amélia, acho que deve estar tendo algum mal entendido, vim até essa cidade pois ouvi falar do lago que aqui havia. Veja bem, eu sou um pintor e …

- Hmm, um pintor dessa vez, muito bem. Quero lhe dizer que nem a arte poderá te salvar caso passe tempo demais naquele lugar. Aquele lago é tenebroso, não trouxe nada mais que a morte a todos que ousaram se aproximar. Ao ouvir aquilo fiquei sem reação, tentei lembrar dos casos que tinha ouvido sobre o lago, buscando possíveis situações anormais, mas não lembrei de nada preocupante.

- Olha, talvez quando o lago se congela, ele realmente possa ser perigoso e sei que por aqui o inverno é rigoroso, mas…

- Não se trata do inverno, que afinal já passou há algum tempo. Se trata de mexer com coisas que não entende. Amélia disse essas palavras tocando de leve nas pétalas de violetas que estavam ali próximas. Ela dizia algo baixinho, quase como uma prece e então retirava folhas secas de seus caules, as colocando com cuidado em uma cesta.

- Na natureza existem formas de vida que aceitam serem acolhidas e cuidadas, outras por sua vez, desejam ser deixadas sozinhas. Um viajante como você deveria saber a diferença mais do que pessoas comuns.

- Sabe Amélia, eu ganho a vida pintando quadros, caso eu pare, não terei o que comer.

- Hora sendo assim, encontre outra coisa para pintar. Amélia disse simplesmente, me observando impassível. Respirei fundo e disse:

- Sabe, seria melhor se as coisas fossem simples assim, primeiro eu tentei fazer isso na minha cidade natal, essa coisa de sair e simplesmente pintar. Mas algo parecia sempre faltar, andei pelas ruas, becos e praças, documentando cada cerca e janela existente, passando depois para as pessoas que andavam, dançavam ou trocavam mercadorias. Fiz isso por um tempo, parecia fazer sentido compreender os meandros daquela cidade. Até que acordei um dia e não conseguia mais pintar. Eu pegava minha maleta com pinceis e telas mas me via a andar sem rumo, como se cada gota de inspiração tivesse se esvaído de minhas veias. À noite, já cansado de um dia sem nada ter produzido, a única descoberta que fazia era a de perceber que mais inspiração escorria, sempre de lugares que me eram inacessíveis. E assim eu continuei por um mês, a cada dia me sentindo mais e mais esvaziado, a morte me encarando das sombras da cidade cada vez mais incolor. Segui assim até que a morte enfim encontrou a minha própria sombra, e agora pesando nas minhas costas eu me sentia abatido e melancólico, parecia um caso incurável.

Enquanto falava me movia pelo jardim, observando as flores, formigas e abelhas que voavam próximas. Durante uma pausa notei que Amélia seguia seu rito de coleta de folhas. Continuei falando:

- Até que decidi sair da cidade. Precisava de novos ares, ali eu não duraria mais muito tempo. Desde então eu sigo viajando. Acredito que existe um elemento peculiar que me atraí aos cenários que pinto, um movimento sagrado e místico que deu sentido novamente ao que faço. Desde então, não diria que me sinto totalmente curado. Afinal, não acredito em salvação absoluta, mas é verdade que me sinto melhor.

Me calei por um instante, observando a senhora que agora me encarava, os olhos enrugados atravessados por um fio de compreensão, ainda assim essa foi sua resposta:

- Isso tudo não muda o fato de que pessoas morreram naquele lago. Viajantes como você, de todos os tipos. Soldados, ladrões, mensageiros e também artistas. Com os mais diversos motivos, todos carregando suas sombras, seus destinos ou a falta destes mesmos. Pela aventura, pela glória, ou pela simples curiosidade, o lago não fez distinção entre nenhum deles.

Enquanto falava a senhora jogava as folhas num canteiro vazio, e as amassava com os pés no que parecia terra revolvida, pronta para o plantio.

- Me diga então, por que você seria diferente?

Era noite quando voltei à cabana. Passei o caminho inteiro tentando encaixar motivações que fizessem sentido, vasculhei palavras como quem procura enquadramentos de cena e esquemas de luz e sombra. Mas confesso que quando cheguei à porta da casa, eu entrava sem resposta alguma. Lavei as mãos novamente, revivendo o desastre que acompanhara aquele primeiro quadro do lago, para depois tomar banho e jantar.

Seria injusto dizer que as palavras de Amélia não surtiram qualquer efeito sobre mim, na verdade a culpei pela minha falta de sono naquela noite. Revirei na cama junto às possíveis consequências do que tentara fazer, junto a uma procura de sentido nisso tudo, “por que sinto que preciso passar por isso?” Atravessei montanhas e rios, vi a divisão entre países e a migração de pássaros, “por que a fascinação por esse lago agora?”, não tem nada lá, ainda assim senti um impacto destoante pela cena, aquela caverna também… nunca havia sido devidamente citada, mas também por qual razão seria? Não sei dizer, não tenho respostas para nada. Ao mesmo tempo que penso que eu nunca precisei de respostas. Meus quadros sempre foram o sentido que me faltava. As cores e texturas, a passagem do tempo suave entre as pinceladas de minhas mãos, talvez seja apenas isso que preciso fazer, apenas pintá-lo. É a única forma que sei de seguir adiante.

Foi nessa hora que o sono se fez presente, enquanto me via novamente às portas dos sonhos, certo de que não desistiria. Tinha pra mim no fundo, que aquele quadro precisava ser feito. Dessa forma, aquele lago poderia enfim ser eternizado.

Dia 3

Tomei café, abri as cortinas e respirei fundo, o dia seria longo, queria desde cedo partir para o lago, mas notei que estava tarde. Estranhamente eu havia perdido a hora, e já estava perto do horário do almoço, tentei não deixar isso estragar meu humor para o dia, enfim completaria minha missão! Com sorte sem imprevistos desta vez, ou ao menos era o que esperava, olhando pelas janelas logo notei que o tempo estava fechado, iria chover e muito, mais uma vez eu e minha boca grande. Ignorei o fato e me preparei para correr com o quadro caso fosse preciso e após terminar de organizar os preparativos rumei para a floresta.

Passando pelos senhores do dominó em frente a padaria, eles se surpreenderam com minha presença:

- Vejam só se não é o senhor artista. Ainda procurando o lago? Disse o mesmo senhor de bigode do dia anterior, seu tom era um tanto debochado. Os amigos como uma plateia animada se colocaram a cochichar, o que me fez notar que a história com Amélia já tinha ido longe.

- Na verdade eu o encontrei. Parei dizendo, enquanto um silêncio retumbante se instalava no ar.

- Vocês teriam uma xícara de café por aí? Pretendo voltar lá para terminar o que comecei.

Um senhor de cabelos compridos e barba branca se apressou para dentro, era o padeiro da vila. E enquanto esperava me aproximei da mesa, o senhor de bigode disse:

- Sabe filho, vem uma chuva forte por aí. Se dá valor a vida deveria pensar sobre a encrenca em que está prestes a se meter. Os homens ao redor acenaram, e dessa vez não havia deboche, mas preocupação em suas expressões. Ele fez a jogada contra um jovem garoto que parecia um infiltrado no grupo.

- Olha eu vou me cuidar. Mas não garanto que não vá voltar para lá. Preciso pintar esse quadro. Sinto que é o certo a se fazer. Terminando de falar logo me voltei para a porta para pegar o café do senhor padeiro. Agradeci e dei um gole na bebida.

- Entendo. Procure não passar pela casa da senhora Amélia.

- Eu poderia saber o motivo? Acredito que já sabem como se deu nossa conversa, apesar disso não brigamos nem nada desse tipo.

- Veja bem. Iniciou o senhor, limpando a garganta e olhando para a plateia. Todos pareciam saber a respeito do que ele estava prestes a contar, a maioria acenou em confirmação ao que ele continuou:

- É complicado, somos uma vila pequena, então sabemos de tudo que acontece por essas bandas. Te contarei para ver se algum juízo entra nessa cabeça oca. O senhor então cruzou as mãos, e abaixando o tom de voz me olhou dizendo:

- A senhora Amélia perdeu o filho naquele lago. Você viu o Arthur, certo? Assenti com a cabeça.

- Ele era o filho do… Erick. Terminando de falar, o senhor fez uma breve prece repetida por todos ao redor.

- Eu não fazia ideia disso. Disse terminando o café para então continuar:

- Prometo não fazer uma cena. Irei embora ainda hoje. Agradeço os avisos. Agora preciso partir. Me despedi dos homens da padaria, agradecendo novamente as palavras e o café e rumei para a floresta.

Ao me aproximar da casa de Amélia sai da rua, e dando a volta pelo campo, pude ver ao longe Arthur brincando próximo a sua casa, não vi sinal de Lila, mas decidi seguir em frente, quanto antes terminasse o quadro melhor. No dia anterior eu pude sentir que era uma obra capaz de mover as pessoas, e agora sabendo de parte de sua história, senti que pintá-lo seria uma maneira de pagar um tributo a todos que ali perderam suas vidas.

Durante uma de minhas viagens, encontrei outro artista que vivia pintando quadros para clientes que gostariam de guardar alguma memória de seus entes queridos, que por diversos motivos, foram mortos em situações onde o corpo não pudera ser recuperado. Ele se sentava com os familiares e ouvia atentamente suas descrições. Eram sessões demoradas e difíceis de serem feitas. Mas no final os familiares agradeciam pelos retratos. Anotei algo que ele me disse quando havia chegado a hora de nos separarmos:

“Durante a jornada da vida, pode ser que tenhamos de encarar a morte. Com sorte, sobreviveremos a ela, mas nem todos têm essa sorte. Cabe a nós então, guardar sua memória. Mas o que podemos fazer? Resistir é claro! Um passo de cada vez, às vezes chorando, berrando aos céus pela nossa finitude e infelicidade. Apesar de tudo, seguimos em frente. Aprendendo cada vez mais sobre a melhor forma de fazer isso. Eu digo que não é uma solução infalível, mas é a melhor que temos. Particularmente a minha se dá em traços de nanquim.”

Perto da floresta segui pela trilha, entrando rapidamente atrás das árvores e seguindo na mesma direção do dia anterior, não vi nem sinal de Amélia de modo que segui em frente. O vento soava alto aos meus ouvidos enquanto revivia o caminho entre as raízes profundas e as folhagens grandes que protegiam o caminho até o lago.

A primeira vez ali tinha me preparado para a distância a ser percorrida, de forma que desta vez fazia o trajeto sem dificuldades. Já na metade do caminho, ouvi um barulho de folhas sendo pisadas. Aquilo foi o bastante para gelar minha espinha. Já estava pronto para ouvir Amélia gritando novamente comigo, porém me enganei, olhando na direção do barulho fui surpreendido com Lila! A cachorrinha estava andando entre as árvores, longe da trilha, e não parecia machucada ou assustada. Por conta disso, logo deixei de lado a ideia de ir até ela, ainda mais porque estava longe do trajeto marcado, de modo que achei mais seguro me manter na trilha.

A aparição de Lila tinha sido estranha, mas logo mudei meu foco para o motivo que tinha me levado até ali. Passando entre os galhos antigos do final da passagem, me vi novamente na clareira. Como esperado o lago permanecia no mesmo lugar, com a diferença de que sua atmosfera estava menos densa, de modo que me senti mais relaxado que no dia anterior.

Antes de começar a pintar, fiz uma pequena prece, nunca fui religioso, mas dadas as circunstâncias me pareceu o certo a se fazer. Me aproximando da beirada, enquanto sentia a terra macia sob os pés, respirei fundo. Ao redor tudo era silêncio, e o vento de chuva assobiava quase que uma melodia pelos galhos das árvores. O lago, logo à frente, transmitia um sentimento de suspensão, como um templo. Parado em sua borda olhei para baixo, e me vi, os cabelos longos e presos se revoltando em mechas soltas graças ao percurso tumultuoso. No fundo do lago, que não parecia um fundo, mas sim um portal, um leve movimento da água se fazia visível, eram peixes! Distantes mas definitivamente, pequenos cardumes de peixes esverdeados. Após um instante de hesitação, me abaixei com cautela e molhei as palmas das mãos, o contato da água fria acordando meus nervos. Em seguida disse palavras tradicionais de cerimônias póstumas de minha terra natal e então me reuni por alguns instantes ao completo silêncio do ambiente. Sem palavras ou pensamentos, meu foco estava totalmente nas gotas que pingavam na superfície do lago, meu reflexo deslizante em ondas circulares.

Após esse momento me coloquei a pintar. Camada após camada, mais uma vez dando vida ao lago. Sua coloração primeiro acinzentada, passando para o azul puro e claro misturado aos reflexos esverdeados pelas plantas costeiras. De vez em quando, meus olhos recaiam na caverna ao fundo. Ela parecia expectante, quase viva. Esperando uma deixa para se fazer pintura também. A mantive somente no campo de visão. Na tela, apenas o lago existia. Entre uma camada e outra, eu imaginava os viajantes e em tons de roxo suave representava suas paixões. Também pensei nos ladrões e soldados, suas emoções em tons solares. Todas as cores mescladas à superfície do corpo d’água, impassível e inebriante, lembrei que ele aceitava a todos igualmente.

Passadas algumas horas, comecei a ouvir trovões ao longe, e logo senti gotas de chuva sobre a cabeça. Comecei a pintar mais vigorosamente, não valia a pena voltar correndo, a tela se molharia de todo jeito, seria melhor terminá-la pelo menos. Sob às gotas de chuva, agora o lago realmente parecia vivo, acordado pela água que o renovava: respingando pela sua superfície em padrões circulares hipnóticos. Ali parei um instante e como se um trovão me acordasse, notei que o lago também era vida! As plantas ao redor, os pássaros que por ali paravam, os peixes que havia visto ao fundo. Aquele cenário escondido estava pulsante com mudança e movimento. A chuva era perfeita para completar a tela, e graças a isso eu estava prestes a dar por encerrado o trabalho, já me preparando para aceitar de vez as gotas de água que alteravam a cena, quando ouvi um barulho alto de algo caindo na água. Meu Deus ARTHUR!

Não lembro quando soltei o pincel e o godê. Quando me dei por mim já me preparava para pular no lago. Quando Arthur começou a gritar e se debater, toda dúvida que tive se esvaiu. Sem pensar em nada pulei no lago, nadando com todas as minhas forças. Na minha cabeça, não existiam mais histórias ou maldições e naquele instante tudo que importava era que um moleque sem noção estava se debatendo a poucos metros de onde eu estava. Minha única missão era manter a concentração, respirando de forma constante e mantendo os membros em movimento até chegar até ele. A chuva torrencial caía como agulhas pontudas, mas isso também era um detalhe pequeno, quase irrelevante, meu foco estava totalmente em seguir batendo os braços, tentando coordenar as pernas que jaziam estáticas a poucos instantes atrás “Acordem!!” Eu repetia para mim mesmo entre uma respiração e outra. Arthur seguia gritando, indo de um lado para o outro enquanto as gotas seguiam caindo impiedosamente, alarmando o lago que se agitava cada vez mais, buscando se expandir, esticando seus tentáculos. Arthur então me avistou e com os olhos confusos e aterrorizados passou a se mover como podia em minha direção.

Continue firme garoto! não seria hoje que os tentáculos levariam a melhor, não mesmo. Aquele dia seria diferente. Segui nadando com o coração na boca, enquanto meu peito doía de tanto esforço. Com os braços parecendo queimar a cada impulso, eu quase sentia como se o lago me agarrasse, os tentáculos me puxando para o fundo, enquanto sua superfície tremia ao redor de forma sobrenatural em suas ondas multicoloridas. Quando pensei que não conseguiria, enfim senti os braços aflitos de Arthur. Sem hesitar o peguei e o coloquei em minhas costas. E enquanto ele se estabilizava, aproveitei para respirar fundo tentando nos manter na superfície. Vendo que a situação estava um pouco mais controlada, gritei sobre a tempestade:

- Tá tudo bem! Respira fundo Arthur, vou te tirar daqui!

- Você não entende!! A Lila! Temos que encontrar a Lila!

Segurei um xingamento, e amaldiçoei minha estupidez. Devia ter buscado a cadela mais cedo.

- Onde ela está Arthur?? Como sabe que ela veio para cá??

- A caverna! A Lila às vezes vem para cá quando fica muito tempo fora de casa, com essa chuva toda não podia deixá-la, pensei que conseguiria alcançá-la a tempo! Enquanto ele falava eu nadava em direção a caverna e mal podia acreditar no que fazia, mas era a borda mais próxima, e se o que Arthur dizia realmente era verdade… não parecia haver outra opção senão tentar um resgate.

Chegando à beirada eu estava totalmente sem fôlego. Por sorte a borda da caverna era ampla e alta, de forma que estaríamos protegidos mesmo com o nível do lago subindo. Isso nos daria algum tempo. Arthur logo se recuperou do susto e já se direcionava para a entrada. Me levantando para acompanhá-lo falei:

- Espera Arthur! Não temos como ver um palmo a frente, vamos esperar um pouco… Antes que pudesse completar a frase, Arthur sumiu nas sombras. Meu coração martelou forte no peito diante do silêncio arrebatador do interior da caverna e somente o padrão impaciente da tempestade se fazia ouvir. Segui mais para dentro e antes de também me perder nas sombras, por um instante desacreditei de meus olhos, Arthur apareceu e começou a dar gargalhadas dizendo:

- Olha que fofo, Senhor Artista!! O menino estava alegre, como no instante que provou a sopa de cenoura e segurava um filhote pequenino, sua pelagem era rala mas claramente era alaranjado como a mãe.

Eu dei risadas com a fofura do bichinho, o alívio percorrendo todo meu corpo. E então dei outra olhada para dentro da caverna, enfim avistando mais um filhote e para meu alívio, Lila.


- Vem aqui garota!! Disse, me abaixando enquanto a chamava com as mãos. Lila se aproximou devagar e quando fiz carinho em sua cabeça senti como se todo o mundo desaparecesse, nada de tempestade, lagos ou quadros. Lila tinha tido dois filhotes! Tínhamos que dar um jeito de tirá-los dali. Estava frio demais, e Lila precisava de um lugar melhor para descansar. Respirei fundo, tentando pensar num plano. Até que tive uma ótima ideia.

- Arthur vamos levá-los para casa, preciso que cuide deles enquanto busco uma coisa!

- Pode deixar comigo senhor Artista!

Saindo para a beira do lago novamente, me alonguei e pulei na água. Notei que o nível estava subindo rapidamente de modo que todo instante contava. Já aquecido pela euforia, fiz o percurso sem sentir grandes incômodos. Durante a travessia senti uma diferença na forma como o lago agia, ele agora parecia me impelir para a frente, guiando meus braços que cortavam a água com maior facilidade enquanto as ondas turvas indicavam o caminho até a outra ponta.

Enfim emergindo na outra margem, corri até minha maleta e a esvaziei. Passei então os olhos rapidamente pelo quadro, e quase não o reconheci, a chuva o havia alterado quase que inteiramente. Tive um ímpeto de procurar um lugar para deixá-lo, mas não havia tempo para isso, dei meia volta com a maleta, agora vazia e atravessei novamente o lago.

Na caverna Arthur já parecia ter esquecido completamente sua queda, e apesar de totalmente encharcado ele brincava com os filhotes normalmente.

- Olha tio! Eles estão lambendo os meus dedos!! Disse ele dando gargalhadas capazes de reduzir o caos da tempestade. Sorri ao notar que Lila estava deitada próxima a ele, aparentemente bem. Mas então notei um problema, Na maleta cabia apenas os filhotes, não parecia uma boa ideia levá-los pelo lago sem Lila, ela poderia tentar nos seguir e acabar se afogando. Me sentei ao lado de Arthur, descansando as pernas enquanto pensava sobre como sair dali:

- Arthur, como você chegou até aqui? Já conhecia o lago?

- Eu conhecia a floresta, mas nunca tinha vindo tão fundo. Sabia que Lila vivia andando por aqui, então decidi fazer o caminho que sabia que ela fazia. Mas o lago foi uma novidade. Ele disse passando a mão na cabeça.

- Olha Arthur, vamos ter que subir pela encosta, precisarei que você seja forte e cuide dos filhotes. Quando Arthur assentiu lhe contei meu plano e então saímos da caverna.

Dia 4

Acordei sem noção de espaço, parecia que tinha sido apagado por um trovão. Estava em uma ala médica improvisada, camas simples, uma escrivaninha com termômetro, uma garrafa de água e um jarro com uma rosa. Ao lado da cama, Amélia estava sentada em uma cadeira. Seu olhar parecia desacreditado, não havia mais ninguém no quarto.

-Fico feliz por vê-lo novamente, jovem artista. Seu tom é moderado porém simpático. Dou um sorriso cansado.

- Digo o mesmo Amélia, onde está Arthur, Lila e os filhotes?

- Estão todos bem. Você os tirou da caverna usando as plantas que cresciam pelas bordas. Ninguém sabe ao certo como fez isso.

Me esforcei para lembrar daquilo, a última lembrança que tinha era do instante logo após sair da caverna: os filhotes dentro da maleta sendo carregados por Arthur enquanto eu segui para a lateral íngreme. Após isso, um branco absoluto. Agora acordado, meu corpo inteiro doía e quando olhei para minhas mãos, as vi enfaixadas e cheias de pontos roxos entre as juntas, claramente não havia sinais de tinta. Lembrei do quadro e levei as mãos aos olhos, soltando o ar dos pulmões.

- Eu te avisei e mesmo assim você seguiu em frente.

- Amélia, eu… Ela fez um gesto com o braço e eu me calei. Do lado de fora, não havia nenhum sinal da tempestade, na verdade era possível ouvir passarinhos cantando, o dia parecia claro e a visão do lago, uma memória distante. Ficamos alguns minutos apreciando aquela nova espécie de silêncio, pude notar que seus cabelos estavam úmidos. É claro. Ela devia ter ido atrás de Arthur quando notou que o garoto havia desaparecido. Procurei palavras que pudessem fazer daquela situação algo além das consequências de minha teimosia estúpida, mas não as encontrei. Amélia enfim disse:

- A muito tempo atrás meu filho encontrou aquele lago, ele também era um pintor, e também se sentiu atraído por aquele lugar. Era tudo, menos natural. Amélia se levantou e foi à escrivaninha, pegando a rosa que estava dentro do jarro.

- Tentei por muitas vezes alertá-lo sobre isso, mas como você, ele não escutou. Ela foi até a janela, segurando a rosa em uma das mãos enquanto tocava suavemente em suas pétalas. Amélia continuou:

- Não consigo explicar como, mas o fato de ter estado lá quando Arthur se perdeu, o fato de ter resgatado Lila e seus filhotes. Amélia se calou por um segundo, como se também buscasse pelas palavras adequadas. Enquanto isso olhei para o teto, os feixes de luz revelando os grãos de poeira que flutuavam preguiçosamente, Amélia enfim se virou para mim dizendo:

- Sabe por que eu cuido das flores? Acenei negativamente com a cabeça.

- Porque tudo que passei na vida fez de mim a melhor pessoa para essa tarefa. Não faço por achar certo, ou pela pura fragrância de suas pétalas. O faço porque aprendi a lidar com seu ciclo de vida melhor que ninguém. Sei quando elas vão nascer, e como algumas vão crescer enquanto outras permaneceram pequenas, e então por um tempo aceito que elas me traram alegria como também para todos que pelo meu jardim passarem.

Estando de lado, tive a sensação de ver a rosa se mover levemente na direção de Amélia, como se estivesse viva. Ela deu um leve sorriso:


- Ainda sim, não posso impedir que elas partam em algum momento. E por isso mesmo, devo continuar cuidando delas enquanto posso. Eu cuido de minhas flores porque sei que enquanto houver vida, haverá esperança.

À tarde fui liberado do hospital, que depois descobri também servir como uma espécie de estalagem. O dono, um médico, foi simpático e me avisou sobre onde encontrar o restante dos moradores, estavam todos na rua central, próximos a padaria.

Chegando lá, apertei a mão de padeiros, ferreiros, alfaiates, fazendeiras, marceneiras, todos envolvidos nas buscas por Arthur no dia anterior. Após o ocorrido, a história se espalhou e tentei pescar os detalhes, mas cada habitante apresentava versões desencontradas. Numa história eu abrira o matagal com uma espada, em outra eu usara minhas telas como barcos sobre a água. E quando pensava já ter ouvido de tudo, me deparei com um jovem que jurava pela vida ter me visto abrindo o lago em dois enquanto o atravessava com Arthur e os cachorros, todos em minhas costas! Nesse ponto decidi me conformar com o mistério, tendo como certeza o fato de em todas as histórias ter salvo Arthur e a família de Lila durante aquela tempestade.

Após me despedir dos habitantes, segui para a casa de Arthur, E logo na entrada avistei ele, os cachorrinhos e Lila. Ao me ver, Arthur correu e me deu um abraço capaz de curar quaisquer desconfortos que eu pudesse estar sentindo até então. Fiquei contente de vê-lo animado, e aparentemente sem machucados. Baguncei seu cabelo dizendo:

- Vejo que trouxe todos em segurança! Sua avó deve estar orgulhosa. O sorriso de ponta a ponta de Arthur era contagiante.

- Olha tio, esses são Pingo e Vento! Disse pegando os dois filhotes que animados balançavam os rabinhos sem parar, lambendo sua cara enquanto ele gargalhava. Lila também se aproximou devagar, se sentando ao nosso lado. Fiz carinho nela e disse:

- Bem, cuide-se pequena. E Arthur, não perca esses levados de vista, parecem já correr por toda parte.

- Eles nunca ficam cansados!! Uma vez sumiram, mas logo os encontrei brincando entre as flores da vovó! Não pude conter um sorriso, era mesmo verdade.

“Enquanto houver vida, haverá esperança.”.


Epílogo

Reuni minhas coisas do meio da tarde, me despedi da cabana e com minha maleta vazia, me preparei para seguir viagem. Não sem antes fazer uma última parada.

Pela floresta o caminho estava mais aberto, graças aos habitantes que foram em busca de Arthur no dia anterior, de modo que foi fácil seguir a trilha, agora já tão familiar. Enfim na clareira avistei meus materiais jogados na lama, e se os pinceis estavam destruídos, ao menos as tintas pareciam intactas. Logo à frente estava o motivo de tudo aquilo: o quadro do lago. Me aproximei da tela e bem, era a minha obra, mas também era outra coisa. O lago na cena parecia mais translúcido, pela influência da chuva que lavara a tela ao ponto de deixar apenas os pigmentos mais essenciais de cada cor. Passando de leve os dedos pela lateral notei como estavam claros os contornos da paisagem, a água fizera uma mistura quase mística entre os limites do lago e os montes ao redor. Era uma boa tela.

Antes de ir embora não pude deixar de olhar para o verdadeiro lago, e ao fundo, perto da caverna, juro que notei um espectro fluido, era a figura de um jovem. Ele segurava um pincel, tinha os olhos de Amélia e em sua expressão carregava um sorriso quente que se destacava apesar de seu aspecto quase impalpável. Ele parecia feliz. Acenei para ele, e enquanto acenava de volta seu corpo foi se mesclando às ondas, em cascatas sutis e brilhantes. Até o final, ele resguardou uma expressão pacífica. E quando já havia sumido de vez, notei como a atmosfera ao redor do lago havia mudado novamente, estava ainda mais leve e parecia até mais aberta a receber a claridade do dia. Ainda assim, conservava seu aspecto sagrado, de portal escondido.

Antes de ir embora decidi deixar o quadro ali mesmo. Percebi que mesmo se viajasse todo o mundo, nunca encontraria um lugar melhor onde deixá-lo. Juntei minhas tintas e o godê e reuni também os pinceis. Estando enfim pronto para partir, fiz uma última prece às margens do lago. A água ainda era fria e o meu reflexo permanecia o mesmo. Sorri pela lembrança vívida da aparição do jovem, olhei uma última vez para o quadro e fui embora.

Notas

Enquanto escrevia pensava que esse texto era sobre uma coisa, a necessidade de criar uma obra que resiste ao tempo, apesar da rotina que perde sua importância. Mas a medida que fui avançando notei que era sobre essa outra coisa, a necessidade de notar a rotina e não apenas existir diante dela, mas se misturar, de fato se fazer presente em cada instante. As obras que surgem pelo caminho são consequência.