Lições de Vida e de Amor

10 de março, 2026

O texto a seguir foi escrito no dia 3 de março. Fiz algumas alterações posteriormente, mas todos os sentimentos principais que me afetaram nesse periodo foram mantidos. Esse site tem um caráter de memorial, e acho importante para mim, guardar e registrar todas as etapas mais significativas da minha vida. Para futuramente revisitá-las e poder ter uma experiência de vida mais completa. Pra além disso, compartilhar trechos com pessoas desconhecidas também ajuda no sentimento de que alguém em algum momento pode topar com esses textos e pode se conectar com eles de alguma forma. Se for o caso, agradeço a visita. Sem mais delongas, segue o texto.

Entrada do diário, 3 de março: Terminei meu namoro de quase 6 meses.

Minha relação com ela era boa, mas de uns tempos para cá passei a sentir que não estávamos construindo nada juntos. Vivíamos bem sempre que nós encontrávamos, nas conversas do dia a dia, nas trocas sobre sentimentos e coisas menores que fazem parte de qualquer rotina. Mas para além desses momentos, quando separados, senti que nós dois seguiamos por caminhos muito diferentes. Não que dentro de uma relação os envolvidos precisem caminhar pelo mesmo caminho. Além de impossível, essa forma de pensar pode gerar muito desgaste e um ambiente nada saudável.

Apesar disso, constantemente eu me vi na posição de não conseguir apoiar o caminho que ela estava seguindo. Por achar que a felicidade que ele apresentava era muito ténue, muito sensível e que as consequências de seguí-lo não compensavam os benefícios. Resumidamente, notei que ela gastava bastante com coisas materiais (geralmente relacionadas a roupas, tatuagens, e formas de expressão visual) e empenhava muita energia em entretenimento (principalmente redes sociais), mas pouquíssima energia em responsabilidades e autocuidado. Sei que é egoísta, mas fiz tudo que pude pensando no bem estar dessa pessoa, dei conselhos, indiquei possibilidades que ao meu ver levavam a mais felicidade na vida: estudos principalmente, reflexões internas, sempre dizendo à ela que devia se pôr em primeiro lugar antes de tudo (no sentido de olhar mais para dentro e para o que queria da vida) mas notei que isso não acontecia (ela não via os vídeos que mandava sobre o assunto) e que reflexões sobre possibilidades de futuro sempre eram deixadas para depois, um depois que nunca vinha, a não ser que eu iniciasse conversas do tipo, onde eu falava muito enquanto ela concordava, mas que para além disso não rendiam nenhuma mudança de fato.

Dito tudo isso, sempre me importei muito com ela (e ainda me importo, é uma boa pessoa que me ensinou muito, principalmente sobre amizades), e doeu meu coração dar um fim nessa relação. O final se deu porque percebi que eu não conseguia mais me colocar nesse lugar de companheiro pra vida (vejo relacionamentos românticos como laços que levamos por toda a jornada, não falo sobre casamento necessariamente, mas sobre laços que crescem, evoluindo tanto pessoalmente como enquanto casal, algo que se aprofunda para além de simples amizade, se mantendo na dupla segurança que damos um ao outro diante de desafios que vivenciamos). E sobre isso, eu só não conseguia mais dar essa segurança e apoiar suas decisões de vida: o estopim foi quando ela me disse que ia para uma viagem, coisa que tínhamos conversado a uns meses atrás e que eu discordara, pois ela está sem emprego atualmente, e ir nessa viagem (para o aniversário de uma amiga), a faria consequentemente ter que voltar a trabalhar mais cedo, o que tiraria um tempo precioso advindo desse período atual. Tempo com o qual ela poderia estar focando em si mesma, tentando se entender mais e procurando a melhor forma de iniciar estudos ou buscar um emprego menos exploratório. Na época, ela tinha concordado com as coisas que eu tinha pontuado. Então meses se passaram e o assunto parecia estar encerrado, até que ela me disse que iria para a viagem, já marcada para um dia após o anúncio. Sendo justo, acho que ela teria me contado antes, mas no final de semana anterior a viagem fui 'obrigado' a ir num retiro da igreja, por pressão da minha mãe, que tinha me inscrito junto a meu irmão menor, e bem, ela disse a ele que eu ia então achei que seria chato eu voltar atrás com ele (mesmo que eu mesmo nunca tenha concordado com a situação para começo de conversa), por isso fui, e lá fiquei 2 dias e meio sem falar com Girassol. Acontece que foi a primeira vez em quase seis meses que ficamos sem nos falar. Foi o primeiro momento em que pude parar e pensar sobre nossa relação de forma isolada, então por mais tóxica que tenha sido a ação da minha mãe, foram assim que as coisas aconteceram. Olhando em retrospecto, talvez sem esse tempo, eu não tivesse terminado o relacionamento na segunda seguinte a esse fim de semana. Dado esse contexto, Girassol me contou da viagem na segunda (a menos de 24h após o fim do retiro). Enfim, aquilo foi um ponto de tensão que eu sabia que não conseguiria lidar (ela já tinha feito outra viagem no passado, e nela, pequenos confitos surgiram, já indicando tudo que já relatei aqui. Olhando tudo, notei que não estava pronto pra lidar com algo parecido de novo), daí a chamei para conversar, e pessoalmente disse meus motivos para o término.

No fundo eu pensava que poderia ajudá-la a ser mais feliz, mas isso foi um erro. Acho que ninguém tem o direito de achar que pode trazer mais felicidade a alguém, afinal ela pode estar feliz vivendo como vive. Quem sou eu para impôr qualquer coisa que seja? Por isso mesmo, decidi acabar com a relação antes que eu fizesse algo nesse sentido, ela foi compreensiva e disse que esperava que isso pudesse acontecer, mas não queria que fosse assim, e isso é foda, nos choramos lado a lado, e eu relembrei de Past Lives, o primeiro filme que ela me recomendou e que me marcou bastante, chega a ser irônico como tudo se deu no final das contas... apesar do gosto amargo do término, tenho a consciência tranquila de que desde que nos conhecemos nunca impus nada a ela, acho isso errado e tóxico. Mas entendi que do jeito que nossa relação vinha se dando, era questão de tempo até eu ser mais duro sobre essa dinâmica, e tudo que eu não queria era ter de chegar a esse ponto.

Nós terminamos, mas apesar de tudo, pedi que continuássemos amigos. Porque ela de fato me fez bem, e aprendi bastante com nossa relação. O problema era continuar carregando o peso que eu mesmo impus em nossa troca, em expectativas que eu tinha de ver que ela era uma boa pessoa, mas que ao meu ver fugia muito de si mesma. Logo, pensei que com algumas indicações ela poderia se cuidar mais, se encontrando em algum propósito (qualquer que fosse, não acredito em grandes ambições ou planejamentos extensos) para além de apenas ir vivendo dia a dia, poder ser mais contente com as coisas, de forma mais duradoura. Pensei que esse era meu papel como companheiro, mas agora já não tenho certeza sobre isso. E nessa incerteza, notei que ali dentro eu não conseguiria agir de outra maneira que não essa.
Afinal, eu sempre fui uma pessoa que pensa muito, e quando se trata de modo de vida, acho fundamental buscar objetivos, tendo prioridades claras de para onde queremos ir e como queremos viver, obviamente isso não é escrito em pedra, nem eu tenho certeza sobre tudo que quero na vida, mas eu penso que uma ideia geral de para onde caminho é algo importante, e aprendi que também busco isso em uma pessoa com quem procuro me relacionar romanticamente. E tudo isso não é simples. Todas essas coisas são resultado de muita busca interna, de muita auto-análise e planejamento para além do presente.

Nos momentos do dia a dia a relação era ótima, mas se tratando de futuro, notei que ela não procurava tanto essas coisas (se procurava, eu via poucos sinais de mudança nessa direção), mas tá tudo bem, acho que existem diferentes formas de se viver, se ela prefere seguir vivendo assim, não cabe a mim fazer qualquer julgamento ou dizer que ela deve seguir por onde penso que é o melhor caminho. Ainda assim, a cada dia fui me tornando mais consciente de como seu modo de vida me preocupava. Não me pareceu saudável sempre dormir tarde, sempre sair com os amigos tendo tantas questões próprias a serem resolvidas, sempre deixar para última hora coisas como organização de espaços pessoais e reflexões sobre os caminhos da vida; Aos meus olhos ela é uma pessoa sempre em fuga. E se todos temos problemas, o que mais me deixou mal foi notar que eu não conseguia ajudá-la a lidar com nenhum deles. Sendo assim, preferi me distanciar antes de machucar a nós dois. Não sei se foi falta de apoio da minha parte, insegurança ou medo, mas notei que era o melhor que poderia fazer no momento. Mesmo doendo, mesmo sendo difícil e sabendo que talvez em outro momento poderíamos ter continuado juntos. Talvez se tivéssemos nos encontrado em caminhos de vida mais próximos, com menos diferenças e objetivos que se comunicassem de forma mais simples essa história seria outra. Apesar de tudo, sou grato a tudo que vivemos juntos. E desejo que ela possa ser feliz, mesmo que eu não esteja tão próximo para ver isso acontecendo.

Passado tudo isso, uma semana após o término (ainda bastante cedo, sei disso), pude refleti muito e notei que realmente, não só de amor vive uma relação. É preciso mais do que somente isso. Se relacionar exige estar preparado para lidar com adversidades e é fundamental ter noção de até onde é possível se conciliar sem nos machucarmos demais nesse processo.

Pessoas podem ter química, mas sem uma boa estrutura, essa relação está fadada a se desgastar e quanto maior a distancia e diferença de estilos de vida, maiores os possíveis estragos dela advindos. Notar isso machuca, mas faz parte da vida.